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  • Allan Araújo

Psicogênese da língua escrita: um resumo da teoria que transformou o ensino da leitura

Atualizado: 21 de set.

Se você chegou até aqui, é bem capaz que já tenha ouvido falar sobre a Psicogênese da língua Escrita ou Psicogênese da Escrita, como também é conhecida. No entanto, se você ainda não ouviu falar nesses termos, não tem problema. Aqui iremos destrinchar ponto a ponto essa teoria.


A ideia com esse conteúdo é te oferecer um resumo completo, desde os seus aspectos mais fundamentais até as suas discussões contemporâneas.


Para início de conversa, vocês sabem que há uma infinidade de teorias dentro no campo da educação, a Psicogênese da língua escrita é mais uma entre essas abordagens teóricas, vamos ao nosso primeiro ponto!


O que é a Psicogênese da Língua Escrita?


A psicogênese da língua escrita é uma teoria que estuda como se organiza o pensamento das crianças durante a aprendizagem da leitura e da escrita, concebendo-as como protagonistas desse processo. O livro “Psicogênese da língua Escrita”, publicado por Ferreiro e Teberosky, apresenta estudos pioneiros sobre essa abordagem.


Sigamos nessa explicação detalhada.


Primeiro, vamos falar do que significa o termo Psicogênese. Para o dicionário Aulete, Psicogênese significa “Estudo da origem e desenvolvimento dos processos mentais ou psicológicos, da mente ou da personalidade”.


De forma resumida, esse termo significa a análise de como a nossa mente se comporta quando em contato com fatos, atividades e experiências psicológicas. Para as crianças, por exemplo, o contato com as palavras é um importante marco da sua trajetória de aprendizagens.


Isso é relevante pois, identificando as etapas de desenvolvimento da leitura nessas crianças, os educadores podem utilizar as ferramentas pedagógicas específicas para cada uma dessas fases, fazendo-os progredir de forma eficiente e personalizada.


Quais são os níveis da Psicogênese da Lingua Escrita?


Há vários níveis na Psicogênese da Lingua Escrita, esses níveis ou fases de aprendizagem servem para identificar o patamar de habilidades para a leitura e a escrita demonstrado por essa criança.


Os quatro mais importantes são: os nível pré-silábico, silábico sem valor sonoro e com valor sonoro, silábico-alfabético e silábico. No entanto, alguns teóricos incluem também a fase icônica e a garatuja.


Falaremos aqui, de forma introdutória, sobre cada uma dessas etapas.


Fases icônica, garatuja e pré-silábica


Na fase Icônica, a criança representa a escrita com um desenho, um ícone, ela tende a expressar-se graficamente em figuras, desenhos ou gravuras do que pretende dizer.


Se exigem dela que escrevam a palavra coração por exemplo, é muito comum que ela desenhe um símbolo relacionado ao coração. Essa é a etapa inicial de todo o processo alfabetizante.


Já na fase Garatuja ela percebe que quando as pessoas estão escrevendo, o que elas grafam no papel não são necessariamente figuras, ícones, mas códigos, às vezes representados com letras cursivas que elas prontamente identificam como riscos, linhas, rabiscos.


Nessa etapa a criança ainda não faz relação entre a palavra e o som. Na tentativa de imitar a escrita de palavras, elas rabiscam linhas, ondas, círculos, garatujas que emulam a escrita.


É muito importante, desde essa fase, desenvolver com as crianças, atividades onde elas sejam colocadas em contato com os sons, para que assim, elas possam compreender não apenas graficamente a escrita, mas também identificá-la com o seus respectivos sons.


Exemplos de atividades onde estão presentes essa relação entre a escrita e o som são as músicas e parlendas, ótimas para exercitar a consciência fonológica e silábica – a divisão das palavras em pedaços de sons.

Outra fase fundamental é a fase Pré-silábica, aqui a intenção é fazer com que as crianças relacionem o som das sílabas com a formação e a escrita das palavras. Nesse ponto elas já avançaram na compreensão de que, para escrever, o que se usa são letras e não ícones ou meros riscos desordenados.


Ainda que elas não consigam criar palavras inteiras, elas já assimilam a necessidade de utilizar letras dispostas de forma conjunta para a formação de palavras.


Fase silábica sem valor sonoro e silábica com valor sonoro


Na fase “Silábica sem valor sonoro” a criança começa a perceber a segmentação do som na formação de palavras, ou seja, as sílabas.


Mesmo que elas não consigam escrever completamente as palavras, há nessa fase a identificação de partes que se unem, pedaços que formam as sílabas, por exemplo, a palavra jacaré pode ser grafada por elas com apenas três letras, dado que é constituída de três sílabas.


Há pela primeira vez de forma determinante a identificação da existência de sílabas, no entanto, essas sílabas ainda não estão coladas perfeitamente ao som falado por elas, daí que elas não tenham ainda valor sonoro.


É interessante nessa fase que os educadores realcem o som das sílabas, verbalizem-nas para que essas crianças sejam conduzidas para a próxima fase, onde as sílabas terão valor sonoro. É fundamental que elas possam identifica as letras e silabas coladas ao som expressado pela voz.


A transição para a fase “Silábica com valor sonoro” se dá quando as crianças começam a relacionar ao menos uma letra da sílaba com o som silábico. Exemplo: para expressar a palavra "boneca"; elas podem escrever “O-E-A”.

Há sempre a possibilidade de confusão de letras com o som que elas representam, por exemplo, o “K” com o “C” ou com o “H”.


Admite-se aqui a possibilidades dessas confusões desde que tenham um sentido sonoro na sílaba; a palavra "boneca" não conta com a letra K, no entanto, a junção de C+A pode confundir as crianças nesse primeiro momento, o que não se estabelece, a priori, como um problema. É importante frisar que nessa etapa é fundamental que a consciência do som precede sua representação escrita.


Fase silábico-alfabética e alfabética


Na etapa Silábico-alfabética o educador continua desempenhando seu papel de conduzir a criança, auxiliando na organização do seu pensamento.


Se antes ela identificava apenas o som mais presente ou mais forte nas palavras – geralmente as vogais – agora ela tem a tarefa de identificar os sons coadjuvantes na composição silábica.


A transição entre a fase silábica alfabética e alfabética costuma ocorrer de maneira mais fluida. Na fase silábica-alfabética ela já consegue com facilidade representar o som de cada sílaba graficamente, ainda que existam desvios ortográficos e que algumas sílabas sejam representadas apenas por uma letra, por exemplo, é comum que ela mais uma vez estabeleça apenas o “K” para representar o C+A.


O importante nessa transição é afiar a organização do seu pensamento no sentido de identificar cada um dos fonemas presentes na construção das palavras, para que dessa forma elas possam seguir para a fase Alfabética.


Chegada à essa última fase, os desvios vão desaparecendo e elas compreendem cada vez mais a composição das sílabas, identificando cada uma das letras ou fonemas utilizados na construção daquelas palavras.


A partir da fase alfabética elas estarão aptas a lidar com a presença de dígrafos e outras regras ortográficas.


Se ainda restou alguma dúvida sobre os aspectos das hipóteses de escrita, nós indicamos essa aula da professora Alessandra Corrêa Farago, onde ela exemplifica com imagens e exemplos cada um dos degraus desse processo de aprendizagem da leitura/escrita.




Quem criou a Psicogênese da Língua Escrita?


Os dois maiores expoentes dessa teoria são as estudiosas Emília Ferreiro e Ana Teberosky. Foi no ano de 1979, fundamentadas por inúmeras pesquisas relacionadas ao tema, que essas duas teóricas publicaram a obra Psicogênese da Língua Escrita.


A primeira delas, a psicóloga Emília Ferreiro, é de nacionalidade Argentina e teve como orientador, o psicopedagogo Jean Piaget, outra grande referência entre os teóricos da Educação.


A segunda pesquisadora, Ana Leonor Teberosky, é uma psicopedagoga também de nacionalidade argentina, mas que há tempos reside e trabalha na cidade de Barcelona, Espanha.


Como aplicar na prática a Psicogênese da Língua Escrita?


É bom deixar claro desde já, que essas fases de desenvolvimento acima expostas não são completamente uniformes, ou seja, há a possibilidade de que alguns estudantes possam estar em trânsito entre elas, dessa forma, as crianças podem demonstrar características presentes em mais de uma etapa.


Isso ocorre por conta das características específicas de cada um desses indivíduos. A aprendizagem se dá de maneira dinâmica, onde as crianças por vezes avançam, ultrapassam uma ou outra barreira e por vezes retroagem pontualmente, trilhando assim um percurso sempre individual e distinto entre essas etapas de desenvolvimento.


Todas as sutilezas presentes na evolução desses estudantes exige dos seus educadores muita atenção e sensibilidade para poderem identificar e localizar as crianças em cada uma dessas fases, de forma a conduzi-las da melhor maneira possível nesse caminho, utilizando as ferramentas específicas para vencer cada uma das barreiras que se apresentam durante o período da alfabetização.


Para a aplicação desse instrumento de ensino-aprendizagem, faz-se necessário um estudo aprofundado da sua teoria, uma capacitação perene dos educadores para a sondagem desses estudantes, para que a partir da análise individual dessas crianças seja elaborado um plano de procedimento que os auxiliem a ultrapassar as barreiras específicas de cada uma dessas etapas.


Qual a importância da Psicogênese da língua escrita?


Como é comum entre as diversas teorias do conhecimento, não há um consenso sobre a aplicação dessa teoria entre os educadores.


O advento das novas tecnologias e de seus objetos, a exemplo do uso de tablets e smartphones; a disparidade social entre as escolas no Brasil e no mundo, a ampla diversidade cultural existente entre os centros de ensino onde essa teoria é posta em prática, enfim, muitos são os fatores que dificultam ou facilitam a sua aplicação.


Nesse material, que aborda as contribuições, equívocos e consequências da Psicogênese da língua escrita para alfabetização, você poderá aprofundar seus conhecimentos sobre sobre as discussões contemporâneas a respeito desse assunto.


O que não se discute é a importante colaboração dessa teoria no debate para o fortalecimento das ciências pedagógicas. É necessário estar sempre atento em como aproveitar de cada uma das teorias concebidas, suas ferramentas essenciais para incrementar a prática de ensino-aprendizagem nas salas de aula.


Já se você é pai ou mãe e sente que o seu filho tem dificuldade na aprendizagem da leitura, aqui você pode encontrar também Cinco dicas para melhorar a concentração das crianças.


Espero que esse artigo tenha ajudado. No nosso blog temos diversos outros textos que podem te ajudar, ficaríamos felizes de receber a sua visita!