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  • Allan Araújo

Como falar sobre depressão com as crianças

Atualizado: 15 de set.




“Meu filho tem depressão, o que fazer?” Nos últimos anos, essa pergunta têm se tornado cada vez mais comum.


Os motivos para esse acréscimo nos casos de depressão e ansiedade entre crianças e adolescentes são os mais diversos, mas aqui, nesse texto, trataremos especialmente da abordagem desse problema junto às crianças. O que falar? Como introduzir esse assunto no nosso papo cotidiano com os pequenos?


Uma conversa franca e aberta sobre o tema é um grande passo na relação entre adultos e crianças. Nesse artigo preparamos uma lista de coisas que podem facilitar a comunicação com os mais jovens quando o assunto é depressão e saúde mental.


Depressão e ansiedade nas crianças e adolescentes


Setembro é mês de conscientização sobre o suicídio e a saúde mental no Brasil. A campanha "Setembro Amarelo" foi criada no Brasil em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).


Nesse mês há toda uma mobilização para levar luz aos debates referentes à importância desse tema para o debate público.


Quando se trata da saúde mental entre crianças e adolescentes os números mostram-se cada vez mais ascendentes. Há diversos estudos em andamento sobre a saúde mental dos jovens e há inúmeros indícios de que a pandemia de Covid 19 teve um impacto substancial na evolução desses tipos de transtorno.


Uma pesquisa da Faculdade de Medicina da USP, que acompanhou 7 mil crianças e adolescentes durante o ano de 2020, indicou que 1 a cada 4 indivíduos dessa faixa etária foram diagnosticadas com depressão ou ansiedade.


Se você chegou até aqui porque o seu filho ou filha apresenta indícios de que algo pode não estar bem, é sinal de que você está procurando compreender o que está acontecendo e procurando ajuda, é o primeiro passo, você está no caminho correto.


Listaremos abaixo algumas medidas que podem te auxiliar nesse processo, mas lembre-se, nada substitui a ajuda de profissionais e especialistas em saúde mental.


Como saber se o seu filho tem depressão


Embora não haja sinais físicos específicos e determinantes de depressão em crianças, alguns sintomas comuns incluem mudança no apetite ou nos padrões de sono, irritabilidade, choro constante, pensamentos sobre morte, ideação suicida, distanciamento social e perda do interesse em atividades antes desfrutadas com prazer.


É importante que os pais e cuidadores reconheçam estes sinais de alerta o mais rápido possível, de modo a instruírem-nas a aceitar o tratamento antes que a situação se intensifique.


E nunca é demais lembrar: apenas um especialista é capaz de diagnosticar a depressão e a ansiedade clínica. É importantíssimo o acompanhamento médico na fase inicial dos sintomas. Jamais medique o seu filho por conta própria ou por indicação de amigos, vizinhos, parentes e pais de outras crianças.


Como falar sobre sentimentos e emoções com as crianças


As crianças são frequentemente muito diretas sobre os mais variados questionamentos e podem fazer perguntas como "O que é tristeza?", "O que é raiva?", ou "Por que me sinto assim?".


Uma parte importante do aprendizado de como lidar com as emoções é também aprender o que são as emoções.


Pais e cuidadores podem usar esta oportunidade para falar sobre suas próprias emoções e por que às vezes também se sentem tristes. Isto pode ajudar as crianças a desenvolverem uma compreensão mais aguçada e diversificada de seus próprios sentimentos.


Outra parte importante da conversa sobre emoções é explicar a diferença entre sentir e demonstrar. Por exemplo, se seu filho está triste, você pode explicar que não há problema em sentir-se triste; muito menos em expressar essa tristeza, por exemplo, chorando.


Você também pode perguntar se há algo específico que tenha causado a tristeza, ou se há algo que você possa fazer para que a tristeza desapareça. Assim ele vai aprendendo a identificar os próprios sentimentos, a relacioná-lo às possíveis causas e a encontrar maneiras de demonstrá-los sem medo ou sem culpa.


Além disso, seja aberto também sobre suas próprias emoções. Se está triste, não esconda a tristeza dos seus filhos, fale sobre ela de forma natural, não minta para eles, isso pode deixá-los mais seguros na hora de contar a verdade para você quando quiser procurar ajuda.


Esta é uma parte muito importante do processo. Quando as crianças mostram sinais de depressão, muitas vezes se sentem sobrecarregadas por seus sentimentos, e podem não entender porque estão tristes ou zangadas. Mantenha sempre uma comunicação aberta e franca com seu filho.


Ajude seu filho a encontrar formas seguras de expressar seus sentimentos


Quando as crianças estão tristes, com raiva ou se sentindo culpadas, elas podem ter o impulso de ferir os outros ou a si mesmas.


A depressão dificulta a organização e o gerenciamento dos afetos e sentimentos de crianças e adolescentes, o que pode levar a comportamentos destrutivos como automutilação ou o uso de álcool e outras drogas.


É importante que as crianças deprimidas encontrem formas de expressar sua tristeza ou raiva de forma segura e apropriada. Você pode ajudá-las a encontrar maneiras de descarregar seus sentimentos com segurança, por exemplo, discutindo um incidente que a perturbou ou desenhando o que ela está sentindo.


A arte é uma ótima forma de expressar a própria condição. A escrita, o desenho, o teatro, a fotografia, a música; são excelentes formas de comunicar angustias, alegrias, medo, culpa, frustrações, e diversas outras sensações experimentadas pelos indivíduos humanos.


Você deve deixar claro que está disponível para conversar quando ele estiver pronto para desabafar. Muitas crianças preferem falar sobre seus sentimentos do que escondê-los, e deixá-los desabafar sem julgamentos ou repreensão pode ser uma boa maneira de aliviar a tristeza.


Será possível prevenir a depressão nas crianças?


Pode parecer óbvio, mas quando se lida com depressão na infância, o melhor que se pode fazer é trabalhar na prevenção.


É óbvio que alguns fatores que auxiliam no desencadeamento da depressão e da ansiedade não dependem diretamente da nossa tomada de decisões, são incontroláveis, como por exemplo; histórico familiar e propensão genética ao desenvolvimento de problemas psíquicos, disfunções hormonais, transtornos psiquiátricos correlatos, eventos traumáticos, etc.


No entanto há outros diversos fatores que merecem a nossa atenção e dependem da adoção de uma série de hábitos saudáveis para que sejam evitados, por exemplo: excesso de peso, sedentarismo, vícios, estresse crônico e problemas de relacionamento advindos de ambiente familiar ou escolar tóxico e gerador de inseguranças.


Atividades físicas, esportes coletivos, uma alimentação saudável, brincadeiras ao ar livre, contato com a natureza, tudo isso é importante nessa etapa inicial da vida das crianças.


Mas ainda assim, se seu filho estiver mostrando sinais de depressão, não se desespere, nem se culpe, procure ajuda de um profissional especialista, certamente ele saberá te instruir a encontrar o tratamento mais indicado para o caso da sua criança.


Nunca menospreze a tristeza ou os obrigue a resolver sozinhos esses problemas. A depressão é uma doença como outra qualquer e exige cuidados específicos. Nem sempre o paciente consegue reunir as forças necessárias para sair de uma crise.


A importância de ambientes saudáveis e projeto de futuro para crianças com depressão


A melhor maneira de prevenir a depressão em seu filho é criar um ambiente positivo e saudável para que ele ou ela prospere, por isso a importância de escolher uma escola inclusiva e sensível para as questões de saúde mental, além dos cuidados para a criação de um ambiente familiar acolhedor e saudável.


As crianças que sofrem de depressão muitas vezes enfrentam um ambiente de muita instabilidade no seu dia a dia. Bullyng, mudança de cidade, um novo irmão, divórcio dos pais, a descoberta de uma doença, etc. Combinar mudanças muito bruscas pode ser extremamente estressante para as crianças, que não desenvolveram as habilidades necessárias para lidar com estes desafios.


É importante também que seu filho tenha objetivos claros para a própria vida. Se ele ou ela está lutando contra a depressão, pode ser útil ter uma conversa sobre o futuro. Isto pode ajudar sua criança a pensar sobre como ele se vê daqui a alguns anos, e que tipo de pessoa ela quer ser.


Embora a depressão possa ser um desafio para crianças e adultos, a boa notícia é que sim, existem muitas estratégias que podem ser usadas para prevenir e lidar com a depressão.


O apoio profissional é indispensável para a condução de um bom tratamento, seja na escola ou no convívio familiar, é preciso estar sempre atento aos sinais e não pensar duas vezes antes de pedir ajuda.


Bem, e se você chegou até aqui, nós indicamos a leitura desse outro artigo com 5 assuntos fundamentais que você deveria tratar com seus filhos adolescentes.